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Será o empreendedorismo uma forma de emancipação da mulher no século XXI?

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O mito da mulher poderosa não é mais a deusa do amor, encarnada por Rita Hayworth ou a bonequinha de luxo, consagrada por Audrey Hepburn. E sim, a bem sucedida nos negócios e na carreira, assediada pela mídia sobre seus segredos de sucesso, beleza e competência em administrar com maestria, além de tudo, a família. Longe do hábito de fumar, o novo mito espelha a fonte de poder e liberdade tão almejada. Dona do próprio nariz, a mulher poderosa, goza a vida do jeito que bem entende.

Será o empreendedorismo a emancipação da mulher no século XXIEm pouco mais de 50 anos, o modelo de mulher virou do avesso. As tais revistas voltadas para o público feminino que vendiam a imagem de sucesso da mulher recatada, do lar, com habilidades manuais, comprometida, exclusivamente, com seus afazeres domésticos e familiares – hoje, ‘modernizadas’, vendem, capa após capa, a mulher que faz tudo e mais um pouco. Ou seja, as mulheres de hoje acumulam as responsabilidades do ambiente interno do ‘lar’ (filhos, marido, casa etc)  + os desafios e responsabilidades do ambiente externo do trabalho/carreira + tem de dar conta de manter-se bonita, bem cuidada, jovial, educada, alegre + em constante aprendizado com cursos de MBA, pós graduações, mestrados, doutorados + disponibilidade de agenda para viajar conforme as exigências do trabalho que realizam.

Tá bom pra você ou quer mais?

A inspiração para refletir sobre esse assunto vem da experiência como empreendedora e do texto de Rejane Carolina Hoeveler que li, recentemente. Transformar crise em oportunidade virou um dos slogans mais corriqueiros no Brasil e no mundo desde que os efeitos da crise econômica mundial de 2008 se alastraram, causando desemprego e desespero social. Empreendedorismo também virou palavra-chave de empresas, governos, e de uma miríade de ONGs e entidades de perfil empresarial com atuação social. Agora atinge cada vez mais um público em especial: as mulheres.

O empreendedorismo feminino é a coqueluche das recomendações em políticas públicas voltadas para mulheres. Organizações não-governamentais cada vez mais se dedicam a formular programas, prêmios, encontros e eventos diversos sobre o tema. A ênfase na independência econômica feminina também é um argumento sempre presente.”

Afinal, será o empreendedorismo uma forma de emancipação da mulher no século XXI? Por acaso, ser empreendedora é não ter de encarar todas essas tarefas e muito mais? Há os que digam que empreendedorismo é a profissão mais bem paga do mundo e, ao mesmo tempo, a mais mal paga do mundo. Todos que decidem empreender, bem sucedidos ou não, sabem disso porque sentiram ou ainda sentem na ‘pele’. E no Brasil, o desafio é maior.

Em 2014, a ONU estabeleceu o dia 19 de novembro como o “Dia do Empreendedorismo Feminino”. Até a indústria cultural trata cada vez mais do tema, como mostra a sequência de filmes “De pernas pro ar” (2010) com Ingrid Guimarães e uma leva enorme de séries e filmes para empreendedoras, que constroem a mitografia contemporânea da self-made woman, como “Joy: o nome do sucesso”, lançado em 2016.

Por que o empreendedorismo é apresentado como solução na crise?

Para analisar o significado mais profundo desse movimento internacional em prol do empreendedorismo, é necessário compreender que a solução é indicada, tanto para as mulheres, quanto para os homens. Trabalho com carteira assinada virou milagre para poucos, devido à persistência das altas taxas de desemprego em todo o mundo, e a vulnerabilidade crônica dos empregos formais em muitas economias emergentes e em desenvolvimento, que afetam profundamente o mundo do trabalho.

Ao conhecer os números, começamos a entender a dimensão do problema. No final de 2015, o desemprego global foi estimado em 197,1 milhões. Em 2016 aumentou 2,3 milhões, elevando o número a 199,4 milhões. No Brasil, a situação é ainda mais grave: A taxa de desemprego no Brasil é mais que o dobro da média dos países emergentes (5,7% em 2017). A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima 13,6 milhões de desempregados até o fim deste ano. Isso representará incremento de 1 milhão e 200 mil pessoas desempregadas no país, como efeito da pior recessão dos últimos tempos.

A principal consequência é o aumento do emprego vulnerável que já responde por mais de 46% do emprego total no mundo, afetando quase 1,5 bilhão de pessoas. A falta de empregos decentes leva as pessoas ao emprego informal, que é tipicamente caracterizado por baixa produtividade, baixa remuneração e falta de proteção social.

empreendedorismo X emprego: como ficam as mulheres nesse cenário?

As mulheres são metade da população mundial, mas só um terço da força de trabalho. Para a Organização Internacional do Trabalho, o trabalho feminino (pago e não pago) é hoje nada menos do que o fator mais importante para reduzir a pobreza nas economias em desenvolvimento.

Um estudo recente do FMI dá os números: se as mulheres estivessem trabalhando na mesma proporção que os homens, o PIB seria 34% maior no Egito, 27% maior na Índia e 5% maior nos Estados Unidos. E mesmo quando as mulheres trabalham, elas estão desproporcionalmente concentradas em setores de serviços e no trabalho informal ou de meio período – caracterizados por menor pagamento e status.

Até as que chegam no topo continuam enfrentando obstáculos. Das 250 maiores empresas brasileiras, apenas 3 são lideradas por mulheres. Entre as 500 maiores companhias do mundo (o Fortune 500), há apenas 23 presidentes-executivas.

De que forma o discurso está acontecendo?

Reproduzo esse trecho do texto de Rejane Carolina Hoeveler, que observa com acuidade:

Começa por destacar qualidades supostamente intrínsecas às mulheres, como serem cuidadosas, atenciosas, e “conseguirem fazer várias coisas ao mesmo tempo”. Encontramos afirmações como a de que o empreendedorismo é “um propósito que tem muito a ver com a maternidade como trazer algo de novo à vida”. A suposição é de que “as mulheres prestam atenção maior a detalhes, são intuitivas e muito sensitivas. Costumam ser mais atenciosas e cuidadosas com os clientes e, finalmente, tendem a conciliar melhor suas atividades profissionais com as atividades pessoais, o que dá mais estabilidade ao negócio, uma vez que problemas pessoais não têm tanto impacto sobre o dia a dia da empresa”.

A ênfase em que contratar mulheres constitui um bom negócio para os negócios continua sendo ressaltada e as vantagens da inserção da mulher no mercado de trabalho, via de regra aparecem relacionadas a uma maior produtividade da mulher pela característica “inata” de ser flexível. Ora, na época do trabalho flexível e precarizado, é bastante conveniente reforçar a naturalização de certas características de personalidade que tornariam determinado sexo mais apto a fazer várias tarefas ao mesmo tempo.

A recorrência a argumentos biológicos também se faz presente. Uma pesquisa americana revelou que o cérebro da mulher seria mais bem adaptado a coordenar tarefas diferentes ao mesmo tempo do que o do homem. Na mesma pesquisa, se afirmou que as habilidades de conciliação de tarefas podem ser aprendidas, ou seja, que todo ser humano tem capacidade de realizar a coordenação de tarefas diferentes. A pesquisa só não explica o motivo pelo qual as mulheres são as que aprenderam mais essa habilidade! No vídeo abaixo, você vê uma paródia dessa habilidade.

BBC Interview Parody

Shout out to all the working women out there defusing bombs on a regular basis!

Posted by Jono and Ben on Thursday, March 16, 2017

Quais são as consequências para essa mulher pró-ativa que concilia negócios, carreira, família e a si própria?

Todas pagam um preço. Obviamente, existem muitas mulheres satisfeitas e realizadas. Sabe-se, no entanto, que quanto mais alto o ‘degrau’, maior a responsabilidade e a cobrança.

Certa vez, entrevistei uma grande executiva, presidente de uma multinacional, com uma trajetória admirável. Quando ficou grávida, sua vitalidade e competência a fizeram acreditar que o ritmo de trabalho poderia continuar com a agenda lotada de compromissos e de viagens a negócios. Infelizmente, ela acabou perdendo o bebê aos oito meses de gestação. Partilhamos olhos molhados de uma emoção que as mulheres compreendem a fundo.

A perda foi tão avassaladora que a fez repensar valores e crenças, e reposicionar-se consigo mesma, mudando o futuro curso da história. Esse não é um caso isolado. Muitas vezes, o preço de dar conta de tudo para corresponder à idealização do mito, é muito alto.

Quando se fala em empreendedorismo feminino, cria-se a ilusão de que permite à mulher mais tempo para cuidar da família e estar mais perto dos filhos. De fato, ela fica mais perto dos filhos. Entretanto, o que se sabe, é que normalmente, as empreendedoras trabalham muito mais, dedicam-se por mais horas do que se fossem funcionárias, e ainda são responsáveis pelo sucesso ou fracasso profissional, medido basicamente pelo seu próprio empenho. Mesmo assim, o empreendedorismo encanta e seduz.

Não é a toa que “cases” de sucesso narrados em livros e programas de televisão, mostrando como é possível a qualquer uma “chegar lá”, façam tanto sucesso pela ideia de se transformar rapidamente numa grande empresária. E as que não conseguem?

Algumas levantam a cabeça e seguem em frente em busca de outras oportunidades. Outras, desesperadas, cheias de dívidas e dúvidas enfrentam um acervo de interrogações a respeito de suas competências, falta de sorte ou de planejamento. Sem falar no sentimento de frustração ao se compararem com as  que conseguiram vencer, estampadas nas capas das revistas.

Inversão ou subversão dos mitos

A pergunta a ser feita é: Por que as mulheres estão ‘comprando’ esse modelo inatingível, que exige desempenho máximo e gozo máximo o tempo inteiro?

É contundente ver mulheres que vivem essa rotina alucinante de trabalho terem horror das que levam uma vida de ‘dondoca’ ou das que fizeram escolhas não tão desafiadoras. Em contrapartida, as que optaram por não enfrentar esse ritmo, podem até não confessar, mas se sentem, muitas vezes, diminuídas e fragilizadas diante das ‘super-mulheres’ da mídia.

No início da década de 50, a publicidade paga pela indústria do tabaco ajudou a empurrar as mulheres para a dependência em nicotina. E até as mais espertas e sábias, renderam-se ao glamour dos gestos.

Rita Hayworth colocou todo seu charme no tabagismo. Esse era o modelo de mulher poderosa da época, chamada de Grande Deusa do Amor. 
Rita Hayworth colocou todo seu charme no tabagismo. Esse era o modelo de mulher poderosa da época, chamada de Grande Deusa do Amor.
O personagem da Audrey Hepburn motivou multidões de mulheres a fumarem. A sua inseparável piteira causava sensação...
O personagem de Audrey Hepburn motivou multidões de mulheres a fumarem. A sua inseparável piteira causava sensação…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao observar a radicalização dos valores que levam as mulheres de um extremo a outro, me ocorre pensar: Será que não está na hora de abandonar estereótipos para exigir o direito de cada mulher ser e viver, naturalmente, com mais equilíbrio e dignidade?

Empreendedorismo feminino não deve ser a coqueluche das recomendações em políticas públicas. O que está faltando é a implementação de políticas públicas e privadas que viabilizem, de fato, a emancipação e a qualidade de vida das mulheres.

Maria Alice Guedes

 

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Veja também: De onde vem o estímulo ao empreendedorismo feminino.

 

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Maria Alice Guedes

Jornalista e escritora, autora do livro Desnudeios, e coach especializada em Psicologia Positiva.

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