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A arte como solução médica

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A ARTE COMO SOLUÇÃO MÉDICA

Até à chegada de Nise da Silveira, os pacientes do antigo Centro Psiquiátrico do Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro, ‘viviam’ a loucura do tratamento tradicional. Eletrochoques, lobotomia, insulinoterapia, camisa de força, entre outras técnicas, eram o cotidiano dessas pessoas isoladas em seu sofrimento mental.

Foi essa médica destemida – uma mulher miúda, mas de temperamento forte e sensível, que empreendeu uma nova forma de convivência desses pacientes com suas síndromes e limitações psiquícas. Essa bela história de amor à Humanidade pode ser conferida no filme ‘Nise da Silveira – o Coração da Loucura’, que entrou em cartaz, no último dia 09, nos principais cinemas do país. Estrelado pela atriz Glória Pires, a ficção dirigida por Roberto Berliner, é uma adaptação do livro ‘Nise  – Arqueóloga dos Mares’, do jornalista Bernardo Horta.

A obra cinematográfica emociona pela luta desta mulher em reabilitar esquizofrênicos e psicóticos – rejeitados pela sociedade e família -, dando-lhes a chance de escapulirem do confinamento prisional e burlarem a solidão através da Arte (literalmente, humanizando-os).

Com a iniciativa, a alagoana deixa sua marca na Psiquiatria brasileira até hoje, e merece, indiscutivelmente, a homenagem do cinema nacional, que já mostrara sua trajetória em documentários. O principal deles é ‘Imagens do Inconsciente’, de Leon Hirszman, produzido em 1986, mas só editado e exibido a partir de 2014 pelo Instituto Moreira Salles.

O cinema brasileiro já abordara o assunto ‘loucura’ em filmes de ficção, com destaque para ‘Asilo Muito Louco’, de Nelson Pereira dos Santos, dos anos 1970, inspirado no livro ‘O Alienista’, de Machado de Assis; e no cultuado ‘Bicho de Sete Cabeças’, de Laíz Bodansky, adaptação da obra literária ‘Canto dos Malditos’, de Austregésilo Carrano.

 

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SUPERAÇÃO

Ao negar o tratamento tradicional aos pacientes, Nise da Silveira foi ‘castigada’ pela instituição e designada para o setor de terapia ocupacional, ala desprezada até então pelos outros profissionais da saúde. Contudo, a médica transformou o castigo em superação, e aprimorou o método existente.

Percebeu que as artes plásticas funcionariam para estabelecer uma conexão dos internos com a realidade, dando ‘voz’ aos seus sentimentos e pensamentos – uma extensão do trabalho do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, um precursor do uso da imagem como forma dos ‘loucos’ se expressarem, e que viria a se tornar mestre dela.

Dra. Nise Silveira, psiquiatra. No alto, uma foto da mão de Carl Gustav Jung, autografada. Rio de Janeiro, RJ, 05/06/1981 - Foto: Lewy Moraes/Folhapress
Dra. Nise Silveira, psiquiatra. Rio de Janeiro, RJ, 05/06/1981 – Foto: Lewy Moraes/Folhapress

“GENTE CURADA É GENTE CHATA”

Na verdade, essa revolução no tratamento de doentes, na longínqua década de 40 do século XX – com repercussão no todo o país, possibilitou mais do que cuidar de pacientes mentalmente instáveis; transformou-os em verdadeiros artistas, com destaque para o (hoje) badalado Arthur Bispo do Rosário.

Nise da Silveira no Portal Ticaloka

As obras chamaram a atenção de outros médicos, além de artistas e críticos de arte, e isso permitiu inaugurar, em 1952, o chamado Museu de Imagens do Inconsciente. Transformado em local de pesquisas, o Museu acumulou, durante décadas, um acervo de 360 mil obras, sendo tombado como ‘Memória do Mundo’, pela Unesco – órgão das Nações Unidas para a Cultura, e também pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nos últimos anos.

A atuação da médica alagoana a transformou ainda mais numa personalidade brasileira. Já era amiga de intelectuais, como a escritora Rachel de Queiroz e do conterrâneo e também literário Graciliano Ramos, que a notabilizou como personagem no livro ‘Memórias do Cárcere’ (os dois estiveram presos no Presídio Frei Caneca, no Rio, acusados de envolvimento com a Intentona Comunista, durante o Estado Novo; Nise até dividiu cela com Olga Benário Prestes, esposa do comunista Luís Carlos Prestes, e que foi deportada para a Alemanha Nazista por Getúlio Vargas).

Contudo, sua defesa pelo bem-estar de pacientes considerados párias sociais a catapultou como crítica da coletividade. Principalmente por discordar, publicamente, do estigma do ‘louco’ no meio social, ao afirmar ser necessário loucura para viver. “Gente curada demais é gente chata”, dizia. Com certeza, Nise da Silveira era uma dessas personalidades raras, que o Brasil atual precisaria para notar seus destemperos e aflições.

Por Vinícius Costa

 

 

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Maria Alice Guedes

Maria Alice Guedes

Jornalista e escritora, autora do livro Desnudeios - Um retrato do homem moderno em suas relações de afeto.

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