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13 Mulheres relatam casos de abuso sexual praticados pelo médium João de Deus

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Ex-pacientes do médium João de Deus o acusaram de abuso sexual no Conversa com Bial desta sexta-feira (7), na Rede Globo. As acusações de abuso sexual contra João de Deus foram reveladas conjuntamente pelo jornal O Globo e pelo programa Conversa com Bial, da TV Globo. Ao todo, Bial e a repórter Camila Appel entrevistaram dez mulheres e ouviram relatos parecidos.

O programa, no entanto, mostrou apenas quatro depoimentos por causa do tempo. Com depoimentos de quatro mulheres, três brasileiras que preferiram não se identificar e a coreógrafa holandesa Zahira Lienike Mous, elas descreveram cenas similares durante o programa sobre a forma como ele se aproximou de cada uma. A holandesa Zahira contou que conheceu a casa em Abadiânia em 2014, quando buscava a cura para o trauma de ter sofrido abusos sexuais no passado.

A manipulação da fé das pessoas tem sido praticada por autoridades de todas as religiões, seitas e curandeiros. Estamos no século XXI, assistindo à atrocidades que acontecem há milênios. Com toda a conectividade, robótica e novas tecnologias, ainda vemos que é possível dominar, manipular, e convencer pessoas de que pela fé e confiança em determinadas figuras que se apresentam com “poderes espirituais e divinos”, serão curadas.

Com essas crenças e ilusões, ficam congeladas e se submetem aos desejos lascivos e corrosivos desses doentes mentais que estão a frente de muitas igrejas como líderes. O que acabo de ver são depoimentos de mulheres abusadas pelo chamado João de Deus, em Abadiânia (Goiás), exibido na televisão por Pedro Bial. Não me surpreende que esses doentes mentais existam e consigam manipular milhares de vítimas durante tanto tempo.

Não me surpreende que milhares de pessoas doem seu último ou único centavo para igrejas, acreditando que dessa forma serão curadas ou receberão perdão e prosperidade divina.

Estamos passando por uma transformação profunda, e perdendo o medo dos monstros que nos afligiam e assumindo a responsabilidade por nós mesmos. Muitas pessoas estão sendo despertadas para a verdade interior de que para ser curado, você não precisa de intermediários, nem de pastores, nem de entidades, nem de rituais mirabolantes.

Esse poder é pessoal. A cura vem de nós mesmos, porque a centelha divina está dentro de cada um que evolui para utilizá-la. No entanto, há milhões de pessoas no mundo que ainda não chegaram nessa abertura espiritual e saem buscando cura nos lugares mais estapafúrdios e se sujeitam, sem entender a razão, às mais diferentes práticas abusivas sexuais ou de estelionato silencioso para alcançar sua graça.

Se você não viu o programa, assista e tire suas próprias conclusões. Tomara que seus olhos se abram, caso seja uma das pessoas que no desespero pela cura da loucura ou de alguma doença, esteja ainda acreditando nas falácias dos manipuladores da fé.

Para o Jornal O Globo, 12 mulheres já haviam declarado abusos sexuais por parte do médium e hoje, sábado (8), mais uma mulher afirmou ao jornal O Globo, ter sido abusada sexualmente por João Teixeira de Faria, o João de Deus. Com isso, já são 13 pessoas que relataram seus casos ao jornal e ao programa “Conversa com Bial”, da TV Globo. Mineira, de 32 anos, ela conta que chegou a considerar se mudar para Abadiânia, em Goiânia, onde fica o hospital espiritual de João de Deus, e que o médium lhe ofereceu uma mesada. Segundo o relato da mulher, o médium tentou colocar a mão dentro das calças dela.

Das mulheres que relataram seus casos ao jornal, sete estão analisando individualmente se irão apresentar denúncias ao Ministério Público ou se vão aguardar a própria Promotoria tomar o primeiro passo. A autarquia tem essa prerrogativa, a partir das denúncias noticiadas neste sábado. Pelo menos três das sete mulheres ouvidas pelo jornal  estão se aconselhando com advogados para determinar como devem proceder.

Leia na íntegra o relato da décima terceira mulher que denuncia ter sofrido abuso sexual por João de Deus:

“Fui muitas vezes a Abadiânia, não consigo nem lembrar quantas. A primeira vez foi em 2013, eu tinha acabado de fazer 27 anos. Desde a primeira vez que fui, a entidade me chamou para conversar na salinha.

Ele teve uma conversa gentil, cavalheiresca. Falou do poder de curar e tudo que poderia fazer. Nos atendimentos abertos ao público, a entidade disse que eu teria que voltar três vezes a Abadiânia, e sempre que fosse deveria procurar por ele na sala.

Cheguei a considerar morar lá. Ele me ofereceu uma mesada para viver ali, disse que poderia ajudar no financiamento de um negócio, se eu quisesse.

Uma vez, fez questão de me chamar para vê-lo negociar a compra de uma fazenda. Senti que queria demonstrar poder e dinheiro, achei aquilo muito estranho.

Quando li a matéria no jornal [neste sábado, contendo as denúncias feitas por seis mulheres], a ficha começou a cair.

Na primeira vez, estávamos na salinha, eu sentada de frente para ele. Tinha uma medalha no meu colar que eu estava trazendo de Praga, fui mostrar a ele. Depois de olhar, ele quis “guardar” a medalha dentro do meu decote. Não gostei. Educadamente, segurei sua mão no meio do movimento, tirei a medalha de seus dedos e, ainda segurando sua mão, coloquei-a sobre o colo dele.

Depois de conversar, ele me pediu para voltar ali depois do fim da sessão, disse que tinha um tratamento a fazer, algo sobre energia. Achei estranho e disse que, depois da sessão, eu iria passear. “Passear? Você está aqui pra se tratar ou para passear?”, ele respondeu. Aí eu disse que iria até a cachoeira, que fazia mais sentido para mim ir naquele lugar, onde todos falam que as entidades estão presentes. Então combinamos que eu voltaria ali no dia seguinte.

Eram 7 horas da manhã, as sessões logo iriam começar no salão. A pedido dele, fui até a salinha. Ele disse que faria um tratamento energético em mim, que precisaria da energia dele. Encaixou o corpo dele por trás do meu, disse que era “para circular a energia”.

Passou as mãos pelas laterais do meu corpo, até chegar à parte da frente, como se estivesse me abraçando. Passando a mão no meu corpo sobre a roupa, disse que eu era muito forte, e de repente ele tentou colocar a mão dentro da minha calcinha. Foi quando eu conseguir dizer “não!”. Assustada, tirei a mão dele, rápido. Dessa última vez tive muito medo, porque eu já tinha entrado ali antes, mas ele nunca tinha feito algo assim.

Ele ficou irritado com a forma como reagi, mas se controlou e se afastou. Disse que iria começar as sessões.

Sei como ele é poderoso, e digo isso no campo material. Energeticamente, espiritualmente não tenho medo nenhum dele. Uma coisa que eu entendi em Abadiânia é que a polícia é do João de Deus, então fazer denúncia lá parece ser impossível.

Depois voltei lá uma vez, para acompanhar uma pessoa, em outubro de 2014.

É muito difícil falar sobre tudo isso, nunca falei pessoalmente com ninguém, além da minha mãe. Depois do que me aconteceu, descobri outros casos. Revoltada com o que tinha me acontecido, pesquisei na internet e encontrei várias coisas.

De certa forma, senti alívio, porque assim vi que eu não estava louca. Tinha outras mulheres que sofreram que nem eu.”

Juristas rebatem argumentos apresentados pela assessoria do médium

Acusado de abuso sexual por 13 mulheres, João Teixeira de Faria, médium conhecido como João de Deus, enviou respostas ao GLOBO através de sua assessoria. No texto, as denúncias são chamadas de “fantasiosas” e ele pede provas. A promotora de Justiça Silvia Chakian, Coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher em São Paulo, e duas advogadas especializadas em defesa da mulher contestam esse argumento e outros levantados pelo médium. Todas elas reforçam que, em caso de abuso, o primeiro passo é procurar uma Delegacia da Mulher ou um Centro de Referência da Mulher.

Parte das vítimas contatadas pelo GLOBO contaram terem conversado com advogados antes de procurar a imprensa para fazer a denúncia. Duas delas afirmam terem sido desencorajadas.

A promotora Silvia Chakian afirma que o caso de João de Deus, “assim como o de Roger Abdelmassih”, médico condenado por 56 estupros de de pacientes mulheres, “mostra como uma mulher relatando sozinha não é sequer ouvida”.

— Um desencorajamento desses leva aos outros. Aí você tem um ciclo vicioso onde esse sujeito se vale do silêncio e da impunidade. Só quando várias se unem e a imprensa apoia, só então a sociedade valoriza suas palavras. Por que isso? E por que as mulheres são mais desacreditadas que os homens?

A procuradora ainda questiona:

— Numa cidade em que a economia e o comércio giram em torno desse centro, a quem interessa manter essas denúncias ocultas?

Provas físicas

“Para que uma situação se caracterizasse como criminosa, a parte lesada teria que demonstrar a materialidade do ocorrido”, escreveu a assessoria de João de Deus, em e-mail enviado ao GLOBO. Segundo as especialistas, não é necessário apresentar provas físicas.

— Desencorajar uma mulher a denunciar por falta de provas é de uma perversidade sem tamanho — afirma a promotora Silvia Chakian. — O crime sexual em sua natureza não deixa vestígio. Então que provas estão exigindo dessas mulheres? Se exigir provas físicas, você sempre vai ter impunidade, e isso é de conhecimento do abusador.

A advogada Alice Bianchini, presidente da Associação Brasileira das Mulheres de Carreiras Jurídicas, explica que, assim como em inúmeros casos de violência doméstica, crimes de abuso sexual acontecem em ambientes fechados onde apenas se encontram a vítima e o algoz, como relatam as mulheres que acusam João de Deus. Nesses casos, explica Bianchini, o que se tem é a voz da vítima contra a do réu, por isso é importante que, quando possível, as vítimas denunciem juntas.

— Quando uma fala, depois outra, depois outra, começam a haver robustez de indícios. Uma funciona dando força para a outras. Por isso é importante que uma mesma investigação análise todos os casos.

Acusações de vingança

“Uma vez que está sendo atingido a honra e  imagem de uma pessoa pública conhecida mundialmente, e muito respeitada, pergunto o que as motiva?”, argumentou ainda a assessoria de imprensa de João de Deus em e-mail enviado ao GLOBO.

— Existe uma visão preconceituosa de que as mulheres usam a lei com objetivo de vinganca e de ganhos patrimoniais — afirma a promotora Chakian. — Isso não reflete a realidade, que é de subnotificação dos casos.

O tempo para denunciar

“Pergunto novamente, por que não procuraram a delegacia  ou o Ministério Público, e se não o fizeram, qual a razão desta omissão?”, escreve a assessoria de João de Deus.

— Há questões que precisam ser elaboradas, como a sensação de culpa, o adoecimento da vítima, que muitas vezes não tem condições de denunciar . Sofrimento psicológico é adoecimento — diz a advogada Laurindo, especializada em atendimentos a mulheres vítimas de violência.

Ela explica que até a última alteração no Código Penal, feita em setembro, as vítimas de estupro tinham até seis meses para abrir denúncias contra seus algozes. Isso fazia com que muitas vítimas perdessem o prazo porque ainda estavam trabalhando a saúde psicológica, afetada pela violência sofrida. Casos do 24 de setembro em diante, no entanto, não dependem mais desse prazo.

— A nova lei olha para as questões de saúde, porque a questão do abuso está ligada à questão de saúde. Então esse prazo de seis meses não serve mais para essas coisas. Há a possibilidade sim da pessoa fazer a denúncia depois desses seis meses.

Para casos anteriores à alteração legal, o que engloba as 12 acusações feitas contra João de Deus, é necessário analisar se as mulheres estavam em situação de vulnerabilidade, explica a promotora Silvia Chakian.

— Em caso de vulnerabilidade, a ação não tinha prazo mesmo antes da alteração recente. O que tem que ser analisado no caso dessas mulheres é a condição de vulnerabilidade, que inclusive conta com efeitos de substâncias, como remédios .

 Ao frequentarem a Casa de Dom Inácio de Loyola, todas as mulheres receberam a indicação de tomar pílulas de passiflora que são encapsuladas no laboratório localizado dentro do terreno do hospital espiritual.
Fonte: O Globo
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Maria Alice Guedes

Jornalista e escritora, autora do livro Desnudeios - Um retrato do homem moderno em suas relações de afeto.

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